Esta semana recebi um email de Andrew Cohen (Google nele) em que dizia estar convicto de a razão maior de estarmos aqui não seria a busca da felicidade, como a grande maioria, eu inclusive, sempre acreditou.
Apesar de não ter podido evitar o choque inicial, já que vai contra uma crença comum e inabalável a qualquer ser humano, não demorei a entender sua afirmação.
Me lembrei do momento em que aconteceu o meu próprio despertar espiritual. Quando compreendi com clareza e sem necessidade de interpretações e argumentos intelectuais, que essa Felicidade é o nosso estado natural. Assim como a Liberdade que é inerente a ela. Palavras diferentes que querem dizer a mesma coisa.
Há 4 anos atrás, depois do fim de mais um relacionamento, cheguei ao limite do sofrimento, da frustração e da falta de sentido para uma vida dedicada, no nível pessoal e profissional, ao crescimento e expansão da consciência.
A sensação de fracasso foi inevitável. O desespero bateu à minha porta. Tudo o que eu tinha tentado e experimentado até então parecia não ter qualquer valor prático e aplicável no meu dia-a-dia. Os erros se repetiam de uma tal maneira que eu me sentia incapaz de os corrigir.
Num momento estava no 7º céu; o passo seguinte era a queda num inferno onde a dor da separação exigia um esforço sobre-humano pra poder suportar.
Foi quando me lembrei da Dolano, auto-intitulada mestre zen radical, e que já estava na minha agenda pra futuras visitas há uns 3 anos.
Sua imagem era a de uma iluminada que conduzia aqueles que participavam de seus satsangs ao despertar espiritual de uma maneira simples, eficiente e que não deixava dúvidas. Direto ao ponto. Ela não dava espaço pra distrações e escapadas nas quais o ego é perito. Era a legítima extração sem anestesia.
Por isso só trabalhava com poucas pessoas de cada vez e, assim mesmo, após minuciosa entrevista onde colocava à prova o comprometimento que o/a candidato/a tinha com esse despertar.
Na mosca! Era o que eu precisava. Por isso, quando me perguntou do que estava disposto a abrir mão pra acordar “de uma vez por todas” (como ela gosta de enfatizar),minha resposta foi imediata e espontânea: “da própria vida.”
E acrescentei, com palavras que os tradicionais mestres zen entendem melhor do que ninguém: “se você quiser cortar minha cabeça e me fazer sentar em cima dela, agradeço.”
Não era uma mera figura de linguagem. Eu verbalizava, tão literal quanto possível, a profunda e devastadora insatisfação que sentia. Me recusava a continuar vivendo (?) daquela maneira. Embora me sentisse incapaz do suicídio, de atentar contra a integridade do meu corpo, a desistência era palpável.
Foi quando ela deu uma gargalhada estrondosa e me disse: “Parabéns! Demorou, mas chegou. Esse é o ponto ótimo. O fim do caminho. Daqui você não tem mais pra onde ir. É por isso que se chama The Last Satsang.”
Como é impossível colocar em palavras o impacto de sua presença, eu fiquei sem elas. Uma sensação inexplicável que continua reverberando mesmo quando o físico se afasta. Mas só fui perceber o que realmente tinha acontecido quando, algumas horas depois, saí pelas ruas de Puna a fim de comprar o material necessário pra encarar o intenso processo de 40 dias.
Os pensamentos que vinham me atormentando tinham desaparecido por completo.
Pela 1ª vez tive a experiência direta da vastidão e profundidade do vazio de uma maneira que nem a meditação tinha me proporcionado. E isso no meio da poluição sonora e do caos absoluto que são as ruas da Índia, especialmente as de Puna.
Pude constatar que esse vazio era a essência de que tanto eu tinha ouvido falar sem conseguir reconhecer, e que, ao contrário dos receios egóicos, era pulsante de energia.
Foi então que compreendi a gargalhada da Dolano. E aí quem gargalhou fui eu.
Como é que um fato tão óbvio pode ser ignorado dessa maneira? Tão fácil de ser explicado no nível racional e tão difícil de ser percebido no nível intuitivo…
A resposta é simples: inversão de olhares.
Gastamos uma energia incalculável olhando pra fora, pra distrações que vão desde relacionamentos super-estimados e dimensionados através de uma compreensão distorcida pelos condicionamentos, até o mais infantil dos gadgets e consumos variados que, de repente, passam a ter uma importância fundamental e que nos levam a lugar nenhum.
Ou, pior, nos levam a variados níveis de dependências tanto emocional (relacionamentos) quanto material (consumos). Nos escravizam através de uma lavagem cerebral que nublam a consciência e nos fazem acreditar em valores absolutamente descartáveis.
E são exatamente essas coisas, que hipnotizam nossa atenção no mundo exterior, que nos impedem de reconhecer que a liberdade que tanto desejamos já é uma realidade. Sempre foi. É inseparável da essência que somos e que só precisa desse reconhecimento.
Alguns amigos estiveram participando do The Last Satsang e descreveram com enorme entusiasmo o que tinha sido essa experiência. Eu sabia que um dia ia bater na porta dela. Só estava esperando pela última gota, quando o copo transbordasse.
- Depois daqui você não tem mais pra onde ir. É o fim do caminho.
A minha longa jornada, pra efeitos práticos de contagem de tempo, começou em 1969 com a iniciação em yoga e meditação. Também naquela época foi uma dolorosa separação que me levou a olhar pra dentro de forma mais consciente e madura, ávido por respostas e mudanças.
E elas vieram. Uma atrás da outra, numa velocidade crescente. Às vezes, um mar de alegrias e celebrações; outras, um deserto de sofrimento e lágrimas. Quando não era o êxtase se misturando com a dor, era o relaxamento em meio ao conflito, ou a compaixão e a vaidade habitando o mesmo espaço, a paz por desistir de esperar, o puro afeto por cansar de jogar…
Não houve nada que não tivesse havido. Pelo menos que eu saiba. As experiências se sucediam sem marcar prazo nem estabelecer regras. Na medida em que meu nível de consciência se expandia a próxima atracão se apresentava, inesperada como sempre.
Quanto mais relaxava e me entregava, mais o filme da minha vida ganhava contornos claros de um caminho não necessariamente feliz pra sempre, mas vibrante e vital, independente de ser bem sucedido ou um completo desastre.
E foi aí que entendi o que o Andrew Cohen quis dizer.
A felicidade, tal como a entendemos, seria, do ponto de vista da análise neutra e imparcial, um impedimento à própria evolução. Esta precisa da fricção e do contraste. O que nós imaginamos e almejamos é um mundo sempre cor-de-rosa (ou a cor de preferência), com festas sem hora pra acabar, amores sem fim, alegria 24 hs por dia, celebração, celebração e celebração.
O que o ego tem dificuldade de entender e aceitar é que a verdadeira Celebração não tem fórmula, tempo, espaço ou jeito específico pra acontecer.
A Celebração de que falam os místicos e iluminados é a de celebrar a vida em qualquer circunstância, mesmo aquelas que o ego não gosta e rejeita, por ter consciência de que se determinada situação está acontecendo é por ser necessária ao crescimento.
Sob o ponto de vista da alma em evolução, que só está interessada na meta maior da expansão a qualquer custo, aquilo que conceituamos como experiência boa ou má não faz a menor diferença
A ela o que importa é A Experiência.
De qualquer maneira a dualidade está contida na unidade e, portanto, em toda e qualquer experiência.
O resto é detalhe.
Combustível pra discussões, debates, dúvidas e defesas de pontos de vista e opiniões de acordo com o interesse momentâneo do ego narciso, individualista e auto-protetor.
É desse estado de dormência espiritual que temos que acordar.
Só assim vamos perceber que a Felicidade não precisa ser buscada e nem é possível ser alcançada. Não precisamos dar um passo sequer na direção da sua irmã-gêmea Liberdade (apenas um outro nome para o mesmo estado). Já somos isso. O passo, numa suposta direção imaginada, é a própria ilusão do encontro exterior.
E ele só nos afasta do verdadeiro destino: de Casa.
